segunda-feira, 12 jan. 2026

Caracóis, aborto e os meninos da Católica

Pegaram na campanha que defendia os caracóis contra o facto de serem petisco e fizeram uma versão própria. “Gostava de ser esquartejado vivo? Ele também não.” – diz o grupo de alunos da Católica enquanto segura a foto de um feto humano. Boa escolha de palavras. Forte, violento, chocante. Agora, acho que este grupo de alunos que fazem parte da Capelania da Universidade Católica, para sermos específicos, devia continuar a dar azo a esta sua veia criativa e desenvolver novas campanhas, até porque é preciso ir mais longe. Proponho, por exemplo: “Gostava de ser o filho de uma violação brutal e desumana e lembrar todos os dias à sua mãe que é o espelho de um sofrimento inimaginável? Sim, gostava porque sempre tinha sido menos um aborto”. Provavelmente, se não tivesse ido para a rua de mini-saia, mesmo a provocar, não tinha sido violada. Agora, aguente-se. “Ah, mas e se for um caso de pedofilia (creio que a Igreja Católica tem uma vaga ideia sobre o que é isto)?”. O nascimento de uma vida é sempre muito bonito, mesmo que neste caso se forme uma espécie de matrioska humana. Nada de abortar.
Caracóis, aborto e os meninos da Católica

E os casos onde a mãe tem uma gravidez de alto risco, incluindo haver o perigo de morte de ambos? Paciência. Se assim aconteceu, foi vontade do Senhor e há que aceitar. E tudo piora quando a gravidez é apenas resultante de uma líbido descontrolada. Deu aquela tesãozita e não se aguentaram? O preservativo furou? A pílula não funcionou? Já deviam estar incrivelmente gratos só pelo facto de a Igreja já aprovar métodos contraceptivos (alguns, vá!). Se mesmo assim tiveram um “acidente”, lidem com isso. Claro que também há aqueles casos em que a mulher opta pela Interrupção Voluntária da Gravidez por ter a certeza de não ter condições financeiras para proporcionar uma vida minimamente digna à criança. Claro que os meninos da Católica também condenam estes casos, e com razão, mesmo que recebam uma mesada dos pais que lhes dava para sustentar uma equipa de futebol, incluindo suplentes, a comida gourmet e berços de luxo. Mas isso é porque o Senhor os abençoou e ninguém tem nada a ver com isso.

Passando pelos comentários no post de Facebook desta campanha, vi mais dois argumentos muito acertados. O primeiro era vindo de uma mulher: "Homens a favor do aborto só estão interessados na vida desafogada deles próprios. Toda a mulher grávida o que mais deseja é ter o filho". Não podia estar mais de acordo. Todos os homens do mundo são uma merda e só pensam neles próprios. É sabido. O outro argumento, em resposta ao facto de um feto com menos de 10 semanas não ter sistema nervoso, nem cérebro, e portanto não sentir dor, foi: “Então se te matar quando estiveres a dormir, qual é a relevância do teu cérebro?”. E nem pensem em dizer que quem fez este comentário é que não cérebro. Não sejam injustos.

O que as pessoas precisam de perceber é que a liberalização da IVG não é respeitar a mulher, o seu corpo e as decisões sobre si mesma. Não é diminuir drasticamente os abortos ilegais com todos os riscos que acarretam, não é providenciar assistência médica e psicológica em condições, não é um progresso sanitário para a sociedade. É sim, ir contra a vontade do Senhor e comprar um bilhete directo para o Inferno. E os meninos da Católica não podem permitir tal coisa, não é verdade?

A verdade é que se a previsão de vir a ter um filho extremamente egoísta para com os outros fosse razão para abortar, estes meninos teriam sido excelentes candidatos. Ainda bem que não somos extremistas.

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