Gravidade dos abusos sexuais de crianças nas famílias exige intervenção rápida

O ministro Mota Soares explicou hoje que a gravidade dos abusos sexuais de crianças dentro da família exige que sejam os tribunais a intervir em vez das comissões de menores que têm dificuldade de "agir em tempo útil".
Gravidade dos abusos sexuais de crianças nas famílias exige intervenção rápida

"Nós percebemos que muitas vezes nos abusos sexuais que acontecem dentro das próprias famílias, a capacidade das CPCJ [Comissões de Protecção de Crianças e Jovens] é diminuta" porque para poderem avançar com uma medida de protecção necessitam de consentimento dos detentores do poder paternal, explicou Mota Soares, à margem da conferência "Crianças Desaparecidas e Exploradas Sexualmente", promovida pelo Instituto de Apoio à Criança (IAC), em Lisboa.

Com esta medida, que faz parte da proposta de lei do Governo de alteração à lei de Protecção das Crianças e Jovens em Perigo, a intervenção passará a ser feita automaticamente pelos juízes de família e menores.

"Face à gravidade deste crime, face à gravidade desta ofensa, faz sentido que sejam os tribunais a poderem fazer essa penalização", porque têm "uma capacidade de intervenção muito maior que as CPCJ", adiantou o ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social.

Segundo Pedro Mota Soares, esta medida é uma forma de conseguir "ultrapassar as barreiras com que as CPCJ sem consentimento dos pais ou quem tem a guarda das crianças encontravam à sua acção", mas também de conseguir "garantir a segurança da criança atempadamente" e "agilizar a tramitação do processo".

Na conferência, que está a decorrer no auditório da Assembleia da República para assinalar o Dia Internacional da Criança Desaparecida, o ministro afirmou que a articulação entre as diferentes entidades que atuam no "primeiro patamar de intervenção na prevenção de situações de perigo era insuficiente".

De acordo com o ministro, "existe uma fragmentação excessiva nas áreas geográficas de intervenção das CPCJ, o que muitas vezes dificulta uma boa organização dos processos".

"Mas sobretudo sinalizámos que, no actual regime, a lei não fixando um limite temporal para a execução das medidas de protecção adiava a concretização de um projecto de vida viável, oportuno e adequado para a criança", frisou.

Para Mota Soares, o tempo de intervenção tem de respeitar, acima de tudo, o tempo da própria criança: "Por isso mesmo estabelecemos que para cada criança um único processo, e para cada processo, um único gestor, evitando desencontros, contradições e divergências de opiniões".

Para que seja possível simplificar procedimentos, o novo regime estabelece a possibilidade da regulação das responsabilidade parentais ser acordada no mesmo processo de promoção e de protecção de crianças, dispensando-se a instauração de um novo processo a decorrer em paralelo.

"Estabeleceu-se que até aos seis anos deve ser dada preferência ao acolhimento familiar em detrimento do acolhimento institucional", frisou o ministro.

Dados da Polícia Judiciária indicam que o número de crimes de abuso sexual de crianças atingiu a "cifra mais elevada dos últimos 10 anos" em 2014, ano em que a Polícia Judiciária investigou 1.335 casos.

A PJ iniciou 1.335 inquéritos em 2014 contra 1.227 em 2013, 1.074 em 2012 e apenas 909 em 2005. Também o número de violações de menores persiste em manter-se acima da centena por ano, tendo sido registados pela PJ 119 casos em 2014, contra 114 em 2013 e 134 em 2012.

Lusa/SOL