quarta-feira, 11 mar. 2026

Casa do Mexicano

Designado popularmente por Casa do Mexicano, devido à exótica decoração hispano-americana que foi inserida em alguns dos seus trechos, o Palácio do Raio, no centro de Braga, surge como uma das mais impressionantes obras do arquitecto bracarense André Soares.
Casa do Mexicano

Mandado construir pelo rico comerciante João Duarte de Faria em 1754-55, com as pinturas interiores, nomeadamente da escadaria, executadas em 1760, representa uma das mais preciosas e distintas obras do rococó civil a nível europeu.

A plasticidade das suas linhas, com a simetria do edifício a contrastar com a assimetria das ornamentações em granito das molduras de portas e janelas, cria um dinamismo de belo efeito dramático. Daí sobressai a secção central, com um portal profusamente enfeitado, a que se sobrepõe uma janela que o liga a um frontão curvo, a destacar-se da restante fachada. Esta decoração só tem paralelo com a riqueza da ornamentação naturalista, feita de conchas, grinaldas, jarras e festões.

Foi desta monumentalidade que o visconde de São Lázaro, Miguel José Raio -  bracarense que fez fortuna no Brasil e adquiriu o edifício em 1834 - se quis gabar.

Assim, abriu em 1863 uma rua em frente à casa, para que esta pudesse ser mais facilmente vista e admirada. É a actual Rua do Raio, traçada como transversal à antiga Rua dos Granjinhos, em cujos gavetos o visconde de São Lázaro mandou também levantar dois edifícios, um para habitação da filha, outro para alojar a senhora que dele se ocupava.

Foi ainda nesse período que o Palácio do Raio foi revestido a azulejos padronizados, adquirindo a tonalidade azulada que o distingue. Com a morte do visconde, em 1882, os herdeiros venderam a Casa do Mexicano ao então Banco do Minho, que no ano seguinte a revendeu à Santa Casa da Misericórdia.

Foi assim que o Palácio do Raio se viu integrado no complexo de edifícios comunicantes que constituíam o antigo Hospital de São Marcos, fundado em 1508 e sob gestão da Santa Casa da Misericórdia de Braga de 1559 a 1975, que foi extinto em 2011.

Funcionava aí, nomeadamente, a morgue do hospital.

Desde então tem estado devoluto, havendo rumores de que as obras actualmente em curso, recuperando alguma da azulejaria degradada das fachadas, sirvam para o adaptar a Museu da Misericórdia de Braga, com exposição de aparelhos, máquinas e diversos utensílios usados nos antigos hospitais.

Apesar de classificado como Imóvel de Interesse Público em 1956, não pode dizer-se que tenha sido tratado com a dignidade que a sua importância e originalidade arquitectónica merece e necessita. Mas ainda assim, quando me pedem conselhos sobre edifícios a visitar, ponho sempre à cabeça a Casa do Mexicano - mesmo sabendo-a apenas visitável por fora, não obstante a pujança sensual da escadaria nobre, ornada por um exótico turco à guisa de convite para entrar, que o seu interior alberga.