Registos (XI)

1. Uma forma inteligente de solidariedade europeia. O Governo português enviou uma carta aos seus parceiros europeus na qual defende a criação de uma política comum de emprego, incluindo um amplo programa de apoio ao desemprego na Zona Euro. É uma excelente proposta. Um fundo europeu de desemprego, articulado entre os países da moeda única, criaria um mecanismo de estabilização que permitiria transferências automáticas para as economias em recessão, pois uma parte dos seus subsídios de desemprego seriam financiados pelo orçamento comunitário. Se esse mecanismos já existisse, certamente que a pressão sobre o orçamento português resultante do aumento de desemprego teria sido atenuada, e fundos poderiam ser libertados para políticas contra-cíclicas.
Registos (XI)

2. Plano B. De cofres vazios, com dificuldade em concretizar um programa económico, a grexit parece cada vez mais próxima. Aparentemente tudo se decidirá em Abril. O day-after começa já a ser delineado.  Avança-se a ideia, em alternativa a uma saída desordenada,  de o  Estado grego pagar aos seus funcionários e credores nacionais em notas promissórias. Se estas promissórias forem credíveis (isto é, se o Estado as aceitar de volta como pagamento de impostos), rapidamente começarão a circular como meio de troca alternativo e, assim, converter-se-ão numa moeda para consumo interno. Os preços e salários continuarão a ser cotados em euros mas  circularão duas moedas, o euro e a nota promissória. E, claro, o mercado encarregar-se-á de estabelecer uma taxa de câmbio entre as duas: inicialmente serão emitidas ao par - ou seja, um funcionário com um salário de 1.000 euros receberá notas promissórias desse exacto montante; porém, rapidamente, esse funcionário verificará que se  quiser utilizar as promissórias como modo de pagamento,  o supermercado apenas lhe permitirá comprar mercearias no valor de 500 euros. Por outras palavras, a notas promissórias desvalorizar-se-ão 50% e o nível de vida do nosso funcionário ter-se-á reduzido pela metade.

3. Financiamento da ciência. A Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) está sob fogo cerrado por parte de investigadores dos centros de investigação,  descontentes com os resultado do último exercício de avaliação de qualidade e concomitante financiamento. É verdade que a FCT cometeu alguns erros (infantis, diria) neste processo. Por exemplo, não se entende porque não apresentar separadamente dois tipos de financiamento com que se havia comprometido: o de base - indexado à dimensão do centro - e o estratégico - reflectindo a sua qualidade. Mas este é um erro de forma ou, na pior das hipóteses, de segunda ordem. No essencial a FCT merece elogios: o exercício de avaliação foi internacional, isento, credível e rigoroso. Ousou cortar o financiamento a alguns centros, e bem. Quanto muito terá pecado por defeito: em Portugal muito do que se faz em nome da ciência não tem genuína qualidade internacional e o país ganharia se os recursos escassos forem concentrados onde maior impacto podem produzir.

4. Redundâncias. Escrever hoje sobre o acidente do A320 da Germanwings é redundante. Tudo já foi dito e redito. Todavia, as viagens aéreas representam uma parte tão importante da minha vida que não consigo fugir ao registo. A ideia essencial da segurança de um avião é a da existência de sistemas redundantes. Faltou um: a redundância para o homem.