sexta-feira, 17 abr. 2026

Farfetch: A Amazon das roupas de luxo é portuguesa

Há negócios que conseguem prosperar mesmo nas alturas mais difíceis. Em Portugal o comum dos mortais aperta o cinto, que já apresenta desgaste e há muito não é renovado. Mas, por esse mundo fora, não faltam guarda-roupas que continuam a crescer, com peças caras e glamourosas. “O mundo é muito grande”, diz José Neves. A sua empresa, a Farfetch, é um caso de sucesso neste segmento - reúne as melhores lojas de Londres, Paris, Nova Iorque, Milão, num total de aproximadamente 300 boutiques juntas na mesma plataforma. Nos seus escaparates virtuais, a Farfetch expõe mais de cem mil produtos de 2.500 marcas. Uma oferta que atrai cerca de 400 mil amantes de moda todos os meses.

Atrás destes números está um empreendedor nato. José Neves criou a primeira empresa, na área da tecnologia, quanto tinha apenas 19 anos. Aos 20, lança a marca de calçado Six London. Em 2007, aos 33, apercebe-se do potencial de aliar o design ao e-commerce e funda a Farfetch. O nome (do inglês far-to-fetch: demasiado longe para ir buscar) reflecte um pouco a personalidade da empresa. “É uma espécie de Amazon para a moda de luxo de alta gama. Somos uma comunidade de retalhistas de moda”, explica o empresário. Uma curadoria exigente na escolha das marcas e a centralização de todos os serviços são alguns segredos do negócio. “As lojas só têm de nos disponibilizar os produtos para os fotografarmos. Depois, tudo é processado por nós: vendas, logística, pagamento, serviço ao cliente e embalagem. A loja empacota, o nosso distribuidor logístico recolhe na loja e entrega ao cliente final”, conta o CEO da empresa. Hoje, Los Angeles, Nova Iorque, São Paulo e, mais recentemente, o Porto acolhem os escritórios que dão apoio aos diferentes mercados internacionais. Para breve têm prevista a abertura em Tóquio. Destinos que são uma forma de agilizar o triângulo de negócio: Farfetch, cliente e loja. 

500 mil dólares em roupa

Esta é actualmente a segunda maior empresa do mundo de venda de artigos de luxo online, apenas atrás da Net-a-Porter. José Neves refere que “92% das vendas, neste sector, acontece em espaços físicos”, mas a explosão dos mercados das compras online jogou a seu favor. Para 2014 tem previsto vender 300 milhões de dólares, o dobro do ano passado. Mostra-se surpreendido com o rápido crescimento da marca, apesar das grandes ambições que sempre teve para o projecto. “Para mim essa possibilidade era apenas de 1%. Mas aconteceu”. 

Em Janeiro deste ano teve lugar o primeiro 'dia 2 milhões de dólares', um claro indicador de que o abrandamento da economia pouco tem afectado o mercado dos bens de luxo, do ponto de vista global. “O crescimento nos mercados tradicionais, como Estados Unidos da América, Europa e Japão, menor depois de 2008, foi compensado pelos mercados emergentes como o Brasil, Índia, China e Rússia, que estão aparecer em força. Os nossos retalhistas da Europa sentiram a crise, mas a Farfetch ajudou com clientes de outros cantos do mundo”, refere o empresário. A título de curiosidade, o valor máximo gasto por um mesmo comprador, desde o início da plataforma, ascende a 520.000 dólares, resultado da aquisição de mais de cem vestidos, 30 casacos e 80 pares de calçado. Em média, um cliente gasta 650 dólares por compra no site, valor ao alcance de poucas carteiras. É dos Estados Unidos da América que chega o maior número de pedidos, representando este mercado 28% das vendas. Já Portugal não chega ao 1%. “Se fosse uma empresa portuguesa era mais de 99% exportadora”.

Funcionários procuram-se

Investidores como a Condé Nast International (responsável por publicar revistas como a New Yorker, Wired ou Vanity Fair), a Advent Ventures, a Index Ventures, a Silas Chou e a Vitruvian injectaram na Farfetch, desde 2010, cerca de 100 milhões de dólares. Apesar do perfil internacional da empresa, algumas funções são nacionais, como a engenharia e o desenvolvimento do sistema da plataforma, “100% made in Portugal”, diz José. A empresa, que emprega cerca de 500 trabalhadores por todo mundo (metade deles entre Guimarães e o Porto), tem previsto o aumento dos postos de trabalho. “Estamos a contratar em Portugal. Podem passar a palavra”.
Ricardo Ribeiro trabalha nos escritórios do Porto como administrador de sistemas e comenta que “a descontracção, os momentos de lazer, as refeições disponibilizadas pela empresa e o facto de todos os funcionários pertencerem à mesma faixa etária [entre os 25 e os 35 anos] são factores que proporcionam um bom ambiente”.

As ambições de José Neves, o homem que “vive num avião”, são claras: posicionar a empresa no número um da venda online de produtos de luxo. A concorrente é forte, mas não assusta a Farfetch. “A inglesa Net-a-Porter é o dobro de nós. No entanto tem um modelo clássico: compra às marcas e armazena os produtos. Nós somos um marketplace e trabalhamos com milhares de empresas. Isso permite-nos ser muito ágeis, porque não temos de comprar mercadoria. A nossa ambição é apanhá-los”, conclui, confiante.