quarta-feira, 14 jan. 2026

À espera de análises negativas para voltar a sorrir

Saber o resultado das duas análises finais ao sangue é um momento aguardado com enorme ansiedade por qualquer doente de ébola cujos sintomas desapareceram. Prova e contraprova vão apurar se ainda está infectado ou se o corpo conseguiu vencer a doença. Quem recebe alta do Centro de Tratamento de Ébola de Conacri (Guiné-Conacri) não costuma sair sem “encorajar os outros pacientes”, descreve Violaine Levistre, chefe da equipa médica do centro dos Médicos Sem Fronteiras (MSF). São momentos “emotivos” e “inspiradores” entre pessoas que criaram laços por serem vizinhas ao longo das semanas em que estiveram isoladas do mundo ou entre familiares que se contagiaram uns aos outros. As palavras de quem se cura são o melhor incentivo para enfrentar uma doença cuja taxa de mortalidade chega a 90%.
À espera de análises negativas para voltar a sorrir

Quando chegam ao centro de tratamento os pacientes “não conseguem fazer nada”, tal é o mal-estar provocado pela doença. Febres intensas, vómitos, diarreias e cansaço generalizado deixam-nos completamente entregues aos cuidados das equipas médicas. Mas quando melhoram são os próprios médicos a recomendar que arranjem algo com que se entreter. O bem-estar mental pode ser meio caminho andado “para se conseguir a cura”, salienta Violaine. “Ouvem rádio, lêem livros, têm telemóveis para falar com a família” e quando o estado físico já o permite são incentivados “a realizar as suas próprias tarefas, cuidando de alguns aspectos do espaço onde estão”. Tudo depende também da idade, até porque o vírus não escolhe faixa etária.

Em média, os doentes ficam no centro durante 15 dias. A família pode visitá-los e até deixar-lhes um prato da sua comida caseira favorita. A conversa nesses encontros decorre sempre com uma distância de segurança pelo meio.

Os trabalhadores no centro são por norma os únicos a dar o seu testemunho das histórias que têm um final feliz. Os doentes não gostam de falar nisso e a sua privacidade é rigorosamente preservada. “Caso contrário podem ser estigmatizados. O mesmo acontece com os funcionários locais”, refere Violaine. Alguns fogem das fotografias dos jornalistas para não arriscarem a rejeição das comunidades onde vivem, como já aconteceu com outros colegas. Trabalhar num centro de tratamento de ébola não é bem visto. O vírus pode marcar uma vida, mesmo sem a infectar.

No actual surto, porém, “nenhum membro dos MSF foi infectado” nos centros de tratamento em três dos países atingidos pela epidemia (Guiné-Conacri, Serra Leoa e Libéria), destaca Jerôme Mouton, chefe de missão - isto apesar de o pessoal médico estar entre os grupos de risco, a par das famílias dos doentes, por lidar  com pessoas infectadas. Mas no centro de tratamento de Conacri ninguém quer arriscar.

Dentro da zona de alto risco

O espaço parece um hospital de campanha com várias tendas de grande dimensão montadas num espaço de 2.500 metros quadrados no interior do Hospital de Donka, a principal unidade de saúde da Guiné-Conacri. Já dentro do centro, há uma outra área: a zona de alto risco, delimitada por redes vermelhas. Dentro desta, os casos confirmados de ébola estão num extremo, enquanto os casos suspeitos estão noutro.

Os doentes por confirmar têm uma entrada directa para a área vermelha, enquanto nós, como todo o pessoal, entramos na zona de baixo risco. Antes, cada visitante tem que se identificar para o livro de registo de entradas e passar as mãos e a sola dos sapatos por uma solução desinfectante com cloro - tal como acontece à saída.

De um lado, há tendas de logística, do outro, espaços de reunião e ao fundo roupas e botas a secar. Ao meio, está a tenda de entrada na zona de alto risco. É nessa tenda que higienistas e médicos (as duas únicas categorias de colaboradores que lidam com os doentes) levam pelo menos 15 minutos para colocar o fato de protecção de cada vez que entram. Botas de cano alto, luvas finas, uma bata amarela para todo o corpo, uma cobertura de tecido para a cabeça e pescoço, uma máscara para a boca, outro par de luvas e óculos de viseira larga. Nenhuma parte do corpo fica descoberta. No final, colocam ainda um avental de espessura acrescida. Depois de entrarem, não podem voltar atrás. Não pode haver qualquer risco de levar o vírus até à entrada, por isso o percurso é de sentido único. Tudo o que entra termina numa saída instalada na outra ponta da zona de alto risco. Ali, os profissionais são desinfectados com mangueiras de pressão e parte dos adereços que vestiram são depois descartados - só peças mais resistentes, como óculos e botas, são desinfectadas e reutilizadas.

Nas últimas seis semanas, o centro de tratamento de ébola de Conacri conseguiu curar 21 dos 31 pacientes recebidos. Os doentes são mantidos sob cuidados específicos. “Não há tratamento para o ébola, mas é como outras doenças. O corpo luta contra ela e pode ganhar essa luta com um pouco de ajuda”, refere Jerôme. A receita passa por “tratar os sintomas e prevenir que outras infecções surjam”, tais como malária, endémica na região, entre outras doenças. Com essa protecção dada ao doente isolado, “mantendo-o hidratado e alimentado” para enfrentar a severidade da febre, vómitos e diarreias, “o sistema imunitário tem capacidade para vencer a luta contra o vírus e a pessoa ficar curada”. 

* Serviço exclusivo da Lusa para o SOL