terça-feira, 12 mai. 2026

Cantora de ópera acusada de ser gorda. Críticos acusados de sexistas

Não é muito vulgar que a ópera seja um terreno de acusações de sexismo, ou que o índice de massa gorda de uma cantora seja apresentado pela crítica como impedimento para um papel.
Cantora de ópera acusada de ser gorda. Críticos acusados de sexistas

Mas foi isso que aconteceu a propósito da escolha da  jovem mezzo-soprano irlandesa Tara Erraught para o papel do  jovem conde Octavian na encenação de O Cavaleiro da Rosa, levada ao palco do Festival de Glyndebourne. Os críticos do Guardian, do Telegraph, do Times e do Financial Times, todos homens, referiram-se a ela, no passado domingo, usando adjectivos como tronchuda, atarracada, badocha, inaceitável.

A resposta não se fez sentir e um coro de cantoras de ópera acusou os críticos de sexismo descarado e de nunca se ter questionado o perímetro abdominal de Luciano Pavarotti.

Montserrat Caballé, a soprano que se tornou uma  rock-star ao associar-se a  Freddy Mercury no tema de abertura dos Jogos Olímpicos de 1992, Barcelona, também nunca foi impedida de personificar a graça feminina em palco.

Mas os tempos são outros. A mezzo soprano Jennifer Johnston considera, num texto publicado no Guardian, que os críticos foram longe demais: “Praticamente nenhuma referência à sua voz, um instrumento gloriosamente bem afinado, e nenhum comentário à musicalidade, competência dramática ou à sua habilidade para comunicar e comover o público”. E salienta que numa sociedade repleta de distúrbios alimentares, pessoas com problemas de imagem, as cantoras de ópera estão cada vez menos imunes ao julgamento sobre o seu aspecto. Anna Netrebko, a bela soprano russa, foi criticada por se ter deixado engordar após a gravidez.

Finalmente ontem, a neo-zelandesa Kiri Te Kanawa veio pôr um pouco de água na fervura e dizer que a bela e promissora cantora de 27 anos foi vítima de um desastre de ‘guarda-roupa’, numa altura em que os organizadores do conceituado Festival de Glyndebourne estão desorientados com a recente morte do director. E aconselhou a cantora a simplesmente ignorar os comentários cruéis e livrar-se do fato e da peruca hedionda que lhe deram.

A questão continua no ar: a ópera, até agora aparentemente o último reduto da fantasia total, quer que as suas cantoras tenham o ‘glamour’ das estrelas de Hollywood? Já não há lugar para divas como a Bianca Castafiore desenhada por Hergé?

Os críticos não se retrataram. Tara Erraught não comentou.

telma.miguel@sol.pt