segunda-feira, 10 ago. 2026

Churchill pintou no Funchal para não se esquecer de quem era

Escrevo e reescrevo, vários assuntos na cabeça, pouca vontade de ir até ao fundo. Há momentos em que não apetece, em que o cansaço de tanta parvoíce desaconselha o risco de sermos injustos como é normal nos exercícios de indignação.
Churchill pintou no Funchal para não se esquecer de quem era
Vi Francisco Assis envergonhado na tribuna do Dragão, ao seu lado Pinto da Costa igualmente embaraçado mas por outros motivos. Vejo um político que se diz diferente, um intelectual com modos jesuítas, talvez de bons costumes, cabeça-de-lista do Partido Socialista nas eleições europeias e ponta-de-lança de um partido que se diz preparado para ser uma alternativa e para fazer diferente. Constato que, no final das contas, a nossa democracia precisa mesmo de um abanão, de gente que faça a diferença, que não se limite a fazer tudo e mais alguma coisa em nome de votos. Como aparecer ao lado de Pinto da Costa.

Li parte da entrevista de Vasco Pulido Valente ao i. Diz o cronista que não devemos nada aos Capitães de Abril. No início da conversa com a jornalista Ana Sá Lopes, contou que, ao lado de Maria Filomena Mónica, com quem namorava, recusou-se a fazer-lhe a vontade e não foi à Rua António Maria Cardoso, sede da PIDE, por ser muito perigoso. Não precisei de ler mais nada, fiquei esclarecido.

Passeei com a família no dia 25 de Abril. Atravessámos a Avenida da Liberdade, vimos os cravos a saltar do céu na Praça do Comércio e pensei então para mim: custava alguma coisa, na comemoração dos 40 anos da revolução, dar a palavra aos militares que a fizeram? Não sou entusiasta do papel que a Associação 25 de Abril tem desempenhado, longe disso, mas custava alguma coisa permitir um reconhecimento e marcar com isso a diferença?

Tenho lembrado o que me contaram da visita de Churchill ao Funchal. O político estava triste por não compreender as razões que o levaram a perder, logo após o final da Segunda Grande Guerra, as eleições em Inglaterra. Como não era de desistir, esperou para ver. E refugiou-se uns dias na Madeira para se reencontrar. Tentou manter a viagem em segredo, mas ao avistar a ilha, nos primeiros dias de 1950, esperava-o uma entusiasta multidão. O político e herói do século respondeu com o V de vitória e seguiu para o Hotel Reid's, onde montou um quartel-general para o salvar da arrogância de si próprio, a arrogância de não entender a injustiça do povo que amava e de que era parte. Pintou telas a óleo em Câmara de Lobos, cruzou-se com as pessoas simples e a aristocracia inglesa do Funchal. E quando se achou preparado voltou a Londres para, no ano seguinte, voltar a concorrer e a ganhar, aos 76 anos, o lugar de primeiro-ministro.

Há solitários que se aborrecem de tão sós e os que estando sós se aborrecem quando não o estão - viver sozinho não é sinónimo de solidão. Talvez seja o mais perigoso dos estados: acomodam-se à companhia de si próprios, afeiçoam-se às rotinas, habituam-se. E a força do hábito é por vezes mais forte do que a necessidade de o quebrar. Menos preocupantes são os que, acompanhados ou não, dilaceram de solidão. Lamentam-se de infelicidade, mas ao menos sabem do que precisam: um encontro que tudo resolva, quem sabe se consigo próprio. O que talvez tenha mesmo acontecido com Churchill por aqueles dias. Ou com Gorbatchov, ostracizado após a Perestroika; com Romano Prodi, humilhado em eleições, meses a seguir a ter salvo a Itália da bancarrota; ou com a equipa de futebol do Barcelona, agredida e insultada por centenas de adeptos incapazes de lhes perdoar uma má época depois de tantos anos absolutamente vitoriosos.

É porque o ser humano é sensível às circunstâncias que as instituições têm de se proteger do que neles (em nós) é volátil e circunstancial. Muitos de nós são cobardes. Muitos de nós são traidores. Muitos de nós pensam uma coisa e o seu contrário. Também por isso passei pela Avenida da Liberdade e pela primeira vez desde há muitos anos, desde que abandonei a carruagem da infância, usei um cravo à lapela. Para festejar o não esquecimento e para me manifestar contra uma democracia doente porque feita de instituições que, também elas, se transformaram numa espécie de seres humanos para pior: voláteis e circunstanciais. Instituições assim não nos protegem, são o que somos com maior perversidade porque feitas de poder e arrogância constitucional. Não tinha de ser assim. Não tem de ser assim.

Mas tudo parece ser a prazo. As ideias, os movimentos, os casamentos. Estou convencido de que o casamento está em crise precisamente porque é um contrato sem termo, uma garantia. Ora, poucas coisas poderiam ser mais contraditórias do que esta - tornou-se impossível mantê-los numa sociedade onde, todos os dias, se diz que os vencedores são os que nada dão como garantido porque tudo deixou de ser para a vida. Num mundo de contratos a prazo, um papel sem termo é uma raridade, no máximo um exotismo. Deveria ser criada a figura do casamento a prazo. Assumia-se que não era para sempre e a felicidade talvez perdurasse.

Pelo menos caminharíamos sabendo que a selva é mesmo selva, não um paraíso de enganos onde o que julgamos que é já não é.