Li parte da entrevista de Vasco Pulido Valente ao i. Diz o cronista que não devemos nada aos Capitães de Abril. No início da conversa com a jornalista Ana Sá Lopes, contou que, ao lado de Maria Filomena Mónica, com quem namorava, recusou-se a fazer-lhe a vontade e não foi à Rua António Maria Cardoso, sede da PIDE, por ser muito perigoso. Não precisei de ler mais nada, fiquei esclarecido.
Passeei com a família no dia 25 de Abril. Atravessámos a Avenida da Liberdade, vimos os cravos a saltar do céu na Praça do Comércio e pensei então para mim: custava alguma coisa, na comemoração dos 40 anos da revolução, dar a palavra aos militares que a fizeram? Não sou entusiasta do papel que a Associação 25 de Abril tem desempenhado, longe disso, mas custava alguma coisa permitir um reconhecimento e marcar com isso a diferença?
Tenho lembrado o que me contaram da visita de Churchill ao Funchal. O político estava triste por não compreender as razões que o levaram a perder, logo após o final da Segunda Grande Guerra, as eleições em Inglaterra. Como não era de desistir, esperou para ver. E refugiou-se uns dias na Madeira para se reencontrar. Tentou manter a viagem em segredo, mas ao avistar a ilha, nos primeiros dias de 1950, esperava-o uma entusiasta multidão. O político e herói do século respondeu com o V de vitória e seguiu para o Hotel Reid's, onde montou um quartel-general para o salvar da arrogância de si próprio, a arrogância de não entender a injustiça do povo que amava e de que era parte. Pintou telas a óleo em Câmara de Lobos, cruzou-se com as pessoas simples e a aristocracia inglesa do Funchal. E quando se achou preparado voltou a Londres para, no ano seguinte, voltar a concorrer e a ganhar, aos 76 anos, o lugar de primeiro-ministro.
Há solitários que se aborrecem de tão sós e os que estando sós se aborrecem quando não o estão - viver sozinho não é sinónimo de solidão. Talvez seja o mais perigoso dos estados: acomodam-se à companhia de si próprios, afeiçoam-se às rotinas, habituam-se. E a força do hábito é por vezes mais forte do que a necessidade de o quebrar. Menos preocupantes são os que, acompanhados ou não, dilaceram de solidão. Lamentam-se de infelicidade, mas ao menos sabem do que precisam: um encontro que tudo resolva, quem sabe se consigo próprio. O que talvez tenha mesmo acontecido com Churchill por aqueles dias. Ou com Gorbatchov, ostracizado após a Perestroika; com Romano Prodi, humilhado em eleições, meses a seguir a ter salvo a Itália da bancarrota; ou com a equipa de futebol do Barcelona, agredida e insultada por centenas de adeptos incapazes de lhes perdoar uma má época depois de tantos anos absolutamente vitoriosos.
É porque o ser humano é sensível às circunstâncias que as instituições têm de se proteger do que neles (em nós) é volátil e circunstancial. Muitos de nós são cobardes. Muitos de nós são traidores. Muitos de nós pensam uma coisa e o seu contrário. Também por isso passei pela Avenida da Liberdade e pela primeira vez desde há muitos anos, desde que abandonei a carruagem da infância, usei um cravo à lapela. Para festejar o não esquecimento e para me manifestar contra uma democracia doente porque feita de instituições que, também elas, se transformaram numa espécie de seres humanos para pior: voláteis e circunstanciais. Instituições assim não nos protegem, são o que somos com maior perversidade porque feitas de poder e arrogância constitucional. Não tinha de ser assim. Não tem de ser assim.
Mas tudo parece ser a prazo. As ideias, os movimentos, os casamentos. Estou convencido de que o casamento está em crise precisamente porque é um contrato sem termo, uma garantia. Ora, poucas coisas poderiam ser mais contraditórias do que esta - tornou-se impossível mantê-los numa sociedade onde, todos os dias, se diz que os vencedores são os que nada dão como garantido porque tudo deixou de ser para a vida. Num mundo de contratos a prazo, um papel sem termo é uma raridade, no máximo um exotismo. Deveria ser criada a figura do casamento a prazo. Assumia-se que não era para sempre e a felicidade talvez perdurasse.
Pelo menos caminharíamos sabendo que a selva é mesmo selva, não um paraíso de enganos onde o que julgamos que é já não é.