Promessas (pouco) credíveis

É comum pensar nas transacções entre agentes económicos como a cedência de um bem em troca de um pagamento monetário. Neste contexto, o agente decide adquirir o bem se o valorizar mais do que o seu preço.

Esta decisão, aparentemente simples, complica-se extraordinariamente quando a utilização do bem não ocorre no mesmo momento em que o pagamento é feito, tornando-se fundamental avaliar não só o benefício directo do bem, mas também a credibilidade do pagador futuro.

Um exemplo típico é um contrato de dívida, em que recebemos dinheiro hoje em troca de um reembolso acrescido de juros amanhã. O juro reembolsa não só a valorização diferente entre dois momentos no tempo, mas também reflecte o risco de incumprimento do devedor, o que faz com que a taxa de juro não seja a mesma para todos os empréstimos.

Mas há outras transacções económicas onde o risco de incumprimento não aparece explicitamente, mas em que este pode comprometer seriamente a viabilidade das trocas. Uma empresa que receba a curto prazo de clientes e pague mais tarde a fornecedores pode gerar dinheiro enquanto está a crescer, mas quando a actividade diminui vê-se obrigada a fazer pagamentos para os quais pode já não ter liquidez. O exemplo recente com empresas que vendiam vouchers de experiências a pronto e pagavam aos fornecedores mais tarde ilustra como a perda de credibilidade pode precipitar a queda do negócio quando todos os credores começam a exigir simultaneamente o pagamento.

Um agente económico cuja credibilidade é particularmente importante é o Governo. Geralmente associamos a credibilidade ao pagamento da dívida pública, mas estende-se a promessas feitas a todo o tipo de agentes, como empresas envolvidas em parcerias público-privadas, que fizeram investimentos avultados em troca de pagamentos futuros, ou trabalhadores que descontaram para regimes de segurança social públicos.

Numa empresa normal, os credores conseguem reaver o seu dinheiro se o valor dos activos da empresa for superior ao valor das dívidas. Caso contrário, a empresa vai à falência, e os credores poderão apenas receber parte do montante nominal da dívida, de acordo com o seu grau de senioridade.

No caso do Estado é mais complicado, pois os limites ao endividamento credível são menos claros, mas os países do Sul da Europa parecem ter atingido uma situação em que simplesmente não é possível o Estado manter todas as suas promessas sem comprometer seriamente o bem-estar das gerações futuras. No entanto, ao contrário de uma empresa, os níveis de senioridade da dívida não estão bem definidos, o que gera tensão adicional no momento de efectuar cortes, com cada um dos credores a defender a legitimidade do seu direito. Até agora o Estado português tem-se esforçado por evitar uma reestruturação da dívida pública, mas outras promessas já foram quebradas.

Embora seja crucial trazer a dívida total para níveis sustentáveis, é também importante que isso seja feito rapidamente, de modo a restaurar a credibilidade do governo, para que não estejamos sempre à espera de mais cortes. Até lá, vamos pagar um maior juro para nos endividarmos junto de credores que temem uma reestruturação, vamos ter menos investimento de empresas que temem maiores impostos, e maior emigração de trabalhadores com futuro incerto.

Professora, Católica Lisbon-School of Business & Economics