quinta-feira, 22 jan. 2026

'A culinária tem muito de ilusionismo'

Depois de Masterchef, Sílvia Alberto apresenta Top Chef, também na RTP. Um programa onde16 chefs profissionais exploram os sabores nacionais e perseguem o título de melhor profissional de Portugal
'A culinária tem muito de ilusionismo'

depois de masterchef, agora é o rosto de top chef…

continuamos na gastronomia. mas o masterchef é um programa para amadores e o top chef para profissionais. aqui a competição é mais agressiva, apesar de o respeito pelos jurados ser enorme – dois dos nossos jurados têm estrela michelin [ricardo costa e cordeiro], e a chef susana felicidade é, por si, uma estrela da cozinha tradicional. é um grande programa de entretenimento, no qual a gastronomia de portugal está muito presente. as provas têm todas a ver com a riqueza deste nosso pequeno país.

os sabores nacionais estão presentes?

claro que sim! e o júri motiva-os para isso. o espectador vai achar que a alta cozinha pode estar disponível na casa de cada um.

não há o risco de o espectador se sentir intimidado perante chefs profissionais?

a culinária tem muito de ilusionismo e, às vezes, os efeitos especiais são mais simples do que imaginamos. criar uma espuma é uma coisa que se faz com relativa facilidade e cujo o efeito é aparatoso. o júri esforça-se para que o discurso seja acessível e desmistifica as técnicas utilizadas. fiquei a saber que a culinária não é só dom. é mais científico do que imaginamos. há pontos de cozedura, formas de cortar que tornam a carne mais macia, tempos de descanso… esse conhecimento torna a nossa vida em casa mais fácil. e estes programas motivam qualquer pessoa, e a mim também, a conhecer melhor a cozinha e facilitam o dia-a-dia.

ficou surpreendida com os concorrentes?

há dois meses que estamos a gravar 14 horas por dia. esta é a nossa segunda casa, toda a gente adiou a sua vida para viver o top chef. e são chefs de restaurantes de renome que no verão estão lotados. nem revelámos o prémio, mas isso não é o mais importante. o mais importante é o título de top chef, é ser reconhecido entre os pares. nunca vi programa tão competitivo, e já tenho apresentado muitos talent shows. aqui se aprende que a gastronomia é um meio duro, agressivo, maioritariamente masculino. foi a primeira vez que vi um grupo não ficar deslumbrado com as câmaras, mas antes querer saber qual a temperatura do estúdio e os equipamentos que têm. tudo é feito a pensar no prato que vão apresentar ao júri e muito pouco a pensar que estão na televisão.

quais os desafios que, até à data, mais a surpreenderam?

no segundo programa tiveram de preparar um cocktail para 85 pessoas. pedimos que definissem o líder de equipa, fossem à despensa, escolhessem os ingredientes e definissem o menu. e depois informei-os que trocassem de bancada e cozinhassem com os ingredientes da outra equipa. têm sido sujeitos a loucuras como cozinhar com ingredientes que compram numa estação de serviço. estão a defender a sua jaleca e a jaleca vale mais que tudo.

nos últimos anos, os chefs tornaram-se uma espécie de rock stars...

sim, a culinária está na moda, e ainda bem. é um bem essencial. toda a gente come, então que se coma bem. é algo profundamente cultural, são as raízes de um país. afectada como a nossa cultura está, curiosamente esta é uma cultura que não se perde.

quais os sabores nacionais que mais a seduzem?

sou filha de alentejanos e gosto de comer bem. mas seria incapaz de provar miudezas, mioleira, coração, túbaros, como eles provaram. mas adorei a prova do pão, azeite e alho. não há coisa mais portuguesa!

em paralelo aceitou o desafio do 5 para a meia-noite para substituir zé pedro vasconcelos. como correu?

foi complicado. saí do top chef para o estúdio do 5 para a meia-noite e não tive grande tempo de preparação, mas a experiência foi divertida e serviu para mostrar um outro registo que já não me era pedido desde a sic. adoro tertúlias e, apesar da responsabilidade, soube-me a lazer.

também arranjou tempo para ajudar a médicos no mundo...

é verdade, sou embaixadora da mais recente campanha de angariação de fundos, na qual fui transfigurada por forma a representar o que pode acontecer a qualquer um se não tivermos acesso a água, saneamento básico e cuidados de saúde. o trabalho da mdm é extraordinário e merece todo o apoio. a conjuntura actual acentua ainda mais as desigualdades, por isso aproveito para lançar o repto: não é possível viver-se indiferente. l

raquel.carrilho@sol.pt