esta tese tem sido levantada com o suporte científico de equipas universitárias que descobriram 20 povoamentos de videiras silvestres, sobretudo nas bacias do guadiana, almansor, ponsul e sado, com mais de dez mil anos.
o mais extraordinário desta descoberta é que os estudos moleculares efectuados comprovam uma maior proximidade genética entre as castas (ou variedades) actuais e essas videiras silvestres agora descobertas, relativamente às videiras do mediterrâneo oriental que pensávamos originais – o que é considerado um bom indicador contra a corrente actual de importação para a ibéria de videiras do oriente pelos mercadores fenícios.
portugal tem feito um trabalho assinalável de valorização da rica diversidade das castas ou variedades de uva para vinho existentes. perto de três centenas de castas estão identificadas e um esforço dedicado está em curso para preservar a biodiversidade e combater o impacto da perda genética que a compra desregrada de materiais de propagação (enxertos) industrializados e homogéneos pode induzir numa cultura que tem de conviver com diferentes microclimas e com pragas e doenças que, através de novos surgimentos ou mutações, podem levar à extinção de uma espécie, como já aconteceu repetidamente.
a selecção de um ‘clone-super-videira’ pode ser fantástico para as doenças e para os rendimentos hoje existentes mas, se perdermos a variabilidade genética que foi ganha ao longo de centenas de anos, o risco de concentrarmos a aposta num só clone pode hipotecar o futuro de uma actividade económica vital para a maioria das famílias portuguesas. o instituto alemão do vinho cruza os continentes à procura de diversidade genética para a casta branca riesling que chegou quase ao risco de extinção na alemanha.
num esforço conjunto das universidades e empresas, e com o apoio de instituições públicas, foi constituída a associação portuguesa para a diversidade da videira que está a implantar pólos de conservação das várias castas e a estudar a respectiva variabilidade genética com resultados muito interessantes, como a confirmação da origem geográfica das castas nacionais e a chocante capacidade de obtermos, no seio da mesma variedade, uma produção de uvas que varia de uma a cinco vezes ou a produção de compostos da cor, do simples para o dobro. sabia que a casta baga, tão dominante nos vinhos da bairrada, afinal é originária do dão?
anibal.coutinho@sol.pt